Retornar à página principal
Assédio
moral no trabalho
BASTA DE HUMILHAÇÃO

O
que é assédio moral?
Assédio moral ou Violência moral no trabalho não
é um fenômeno novo. Pode-se dizer que ele é tão
antigo quanto o trabalho.
A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude
e banalização do fenômeno e na abordagem que tenta
estabelecer o nexo-causal com a organização do trabalho
e tratá-lo como não inerente ao trabalho. A reflexão
e o debate sobre o tema são recentes no Brasil, tendo ganhado
força após a divulgação da pesquisa brasileira
realizada por Dra. Margarida Barreto. Tema da sua dissertação
de Mestrado em Psicologia Social, foi defendida em 22 de maio de 2000
na PUC/ SP, sob o título “Uma jornada de humilhações”.
A primeira matéria sobre a pesquisa brasileira saiu na Folha
de São Paulo, no dia 25 de novembro de 2000, na coluna de Mônica
Bérgamo. Desde então o tema tem tido presença
constante nos jornais, revistas, rádio e televisão,
em todo país. O assunto vem sendo discutido amplamente pela
sociedade, em particular no movimento sindical e no âmbito do
legislativo.
Em agosto do mesmo ano, foi publicado no Brasil o livro de Marie France
Hirigoyen “Harcèlement Moral: la violence perverse au
quotidien”. O livro foi traduzido pela Editora Bertrand Brasil,
com o título Assédio moral: a violência perversa
no cotidiano.
Atualmente existem mais de 80 projetos de lei em diferentes municípios
do país. Vários projetos já foram aprovados e,
entre eles, destacamos: São Paulo, Natal, Guarulhos, Iracemápolis,
Bauru, Jaboticabal, Cascavel, Sidrolândia, Reserva do Iguaçu,
Guararema, Campinas, entre outros. No âmbito estadual, o Rio
de Janeiro, que, desde maio de 2002, condena esta prática.
Existem projetos em tramitação nos estados de São
Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Bahia, entre
outros. No âmbito federal, há propostas de alteração
do Código Penal e outros projetos de lei.
O que é humilhação?
Conceito: É um sentimento de ser ofendido/a, menosprezado/a,
rebaixado/a, inferiorizado/a, submetido/a, vexado/a, constrangido/a
e ultrajado/a pelo outro/a. É sentir-se um ninguém,
sem valor, inútil. Magoado/a, revoltado/a, perturbado/a, mortificado/a,
traído/a, envergonhado/a, indignado/a e com raiva. A humilhação
causa dor, tristeza e sofrimento.
E o que é assédio moral no trabalho?
É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras
a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas
e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício
de suas funções, sendo mais comuns em relações
hierárquicas autoritárias e assimétricas, em
que predominam condutas negativas, relações desumanas
e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes
dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação
da vítima com o ambiente de trabalho e a organização,
forçando-o a desistir do emprego.
Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições
de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes
em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência
subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais
para o trabalhador e a organização. A vítima
escolhida é isolada do grupo sem explicações,
passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada
e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e
a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo
constante à competitividade, rompem os laços afetivos
com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam
ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando
o ‘pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo,
enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando,
‘perdendo’ sua auto-estima.
O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do ‘novo’
trabalhador: ‘autônomo, flexível’, capaz,
competitivo, criativo, agressivo, qualificado e empregável.
Estas habilidades o qualificam para a demanda do mercado que procura
a excelência e saúde perfeita. Estar ‘apto’
significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação
e culpabilizá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana
e miséria, desfocando a realidade e impondo aos trabalhadores
um sofrimento perverso.
A humilhação repetitiva e de longa duração
interfere na vida do trabalhador e trabalhadora de modo direto, comprometendo
sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais,
ocasionando graves danos à saúde física e mental*,
que podem evoluir para a incapacidade laborativa, desemprego ou mesmo
a morte, constituindo um risco invisível, porém concreto,
nas relações e condições de trabalho.
A violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional
segundo levantamento recente da Organização Internacional
do Trabalho (OIT) com diversos paises desenvolvidos. A pesquisa aponta
para distúrbios da saúde mental relacionado com as condições
de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino
Unido, Polônia e Estados Unidos. As perspectivas são
sombrias para as duas próximas décadas, pois segundo
a OIT e Organização Mundial da Saúde, estas serão
as décadas do ‘mal estar na globalização”,
onde predominará depressões, angustias e outros danos
psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão
na organização de trabalho e que estão vinculadas
as políticas neoliberais.
Fases
da humilhação no trabalho
A humilhação no trabalho envolve os fenômenos
vertical e horizontal.
O fenômeno vertical se caracteriza por relações
autoritárias, desumanas e aéticas, onde predomina os
desmandos, a manipulação do medo, a competitividade,
os programas de qualidade total associado a produtividade. Com a reestruturação
e reorganização do trabalho, novas características
foram incorporadas à função: qualificação,
polifuncionalidade, visão sistêmica do processo produtivo,
rotação das tarefas, autonomia e ‘flexibilização’.
Exige-se dos trabalhadores/as maior escolaridade, competência,
eficiência, espírito competitivo, criatividade, qualificação,
responsabilidade pela manutenção do seu próprio
emprego (empregabilidade) visando produzir mais a baixo custo.
A ‘flexibilização’ inclui a agilidade das
empresas diante do mercado, agora globalizado, sem perder os conteúdos
tradicionais e as regras das relações industriais. Se
para os empresários competir significa ‘dobrar-se elegantemente’
ante as flutuações do mercado, com os trabalhadores
não acontece o mesmo, pois são obrigados a adaptar-se
e aceitar as constantes mudanças e novas exigências das
políticas competitivas dos empregadores no mercado global.
A “flexibilização”, que na prática
significa desregulamentação para os trabalhadores/as,
envolve a precarização, eliminação de
postos de trabalho e de direitos duramente conquistados, assimetria
no contrato de trabalho, revisão permanente dos salários
em função da conjuntura, imposição de
baixos salários, jornadas prolongadas, trabalhar mais com menos
pessoas, terceirização dos riscos, eclosão de
novas doenças, mortes, desemprego massivo, informalidade, bicos
e sub-empregos, dessindicalização, aumento da pobreza
urbana e viver com incertezas. A ordem hegemônica do neoliberalismo
abarca reestruturação produtiva, privatização
acelerada, estado mínimo, políticas fiscais etc. que
sustentam o abuso de poder e manipulação do medo, revelando
a degradação deliberada das condições
de trabalho.
O fenômeno horizontal está relacionado à pressão
para produzir com qualidade e baixo custo. O medo de perder o emprego
e não voltar ao mercado formal favorece a submissão
e fortalecimento da tirania. O enraizamento e disseminação
do medo no ambiente de trabalho, reforça atos individualistas,
tolerância aos desmandos e práticas autoritárias
no interior das empresas que sustentam a ‘cultura do contentamento
geral’. Enquanto os adoecidos ocultam a doença e trabalham
com dores e sofrimentos, os sadios que não apresentam dificuldades
produtivas, mas que ‘carregam’ a incerteza de vir a tê-las,
mimetizam o discurso das chefias e passam a discriminar os ‘improdutivos’,
humilhando-os.
A competição sistemática entre os trabalhadores
incentivada pela empresa, provoca comportamentos agressivos e de indiferença
ao sofrimento do outro. A exploração de mulheres e homens
no trabalho explicita a excessiva freqüência de violência
vivida no mundo do trabalho. A globalização da economia
provoca, ela mesma, na sociedade uma deriva feita de exclusão,
de desigualdades e de injustiças, que sustenta, por sua vez,
um clima repleto de agressividades, não somente no mundo do
trabalho, mas socialmente. Este fenômeno se caracteriza por
algumas variáveis:
· Internalização, reprodução, reatualização
e disseminação das práticas agressivas nas relações
entre os pares, gerando indiferença ao sofrimento do outro
e naturalização dos desmandos dos chefes.
· Dificuldade para enfrentar as agressões da organização
do trabalho e interagir em equipe.
· Rompimento dos laços afetivos entre os pares, relações
afetivas frias e endurecidas, aumento do individualismo e instauração
do ‘pacto do silêncio’ no coletivo.
· Comprometimento da saúde, da identidade e dignidade,
podendo culminar em morte.
· Sentimento de inutilidade e coisificação. Descontentamento
e falta de prazer no trabalho.
· Aumento do absenteísmo, diminuição da
produtividade.
· Demissão forçada e desemprego.
A organização e condições de trabalho,
assim como as relações entre os trabalhadores condicionam
em grande parte a qualidade da vida. O que acontece dentro das empresas
é, fundamental para a democracia e os direitos humanos. Portanto,
lutar contra o assédio moral no trabalho é estar contribuindo
com o exercício concreto e pessoal de todas as liberdades fundamentais.
É sempre positivo que associações, sindicatos,
coletivos e pessoas sensibilizadas individualmente intervenham para
ajudar as vítimas e para alertar sobre os danos a saúde
deste tipo de assédio.
Estratégias
do agressor
· Escolher a vítima e isolar do grupo.
· Impedir de se expressar e não explicar o porquê.
· Fragilizar, ridicularizar, inferiorizar, menosprezar em frente
aos pares.
· Culpabilizar/responsabilizar publicamente, podendo os comentários
de sua incapacidade invadir, inclusive, o espaço familiar.
· Desestabilizar emocional e profissionalmente. A vítima
gradativamente vai perdendo simultaneamente sua autoconfiança
e o interesse pelo trabalho.
· Destruir a vítima (desencadeamento ou agravamento
de doenças pré-existentes). A destruição
da vítima engloba vigilância acentuada e constante. A
vítima se isola da família e amigos, passando muitas
vezes a usar drogas, principalmente o álcool.
· Livrar-se da vítima que são forçados/as
a pedir demissão ou são demitidos/as, freqüentemente,
por insubordinação.
· Impor ao coletivo sua autoridade para aumentar a produtividade.
A
explicitação do assédio moral:
Gestos, condutas abusivas e constrangedoras, humilhar repetidamente,
inferiorizar, amedrontar, menosprezar ou desprezar, ironizar, difamar,
ridicularizar, risinhos, suspiros, piadas jocosas relacionadas ao
sexo, ser indiferente à presença do/a outro/a, estigmatizar
os/as adoecidos/as pelo e para o trabalho, colocá-los/as em
situações vexatórias, falar baixinho acerca da
pessoa, olhar e não ver ou ignorar sua presença, rir
daquele/a que apresenta dificuldades, não cumprimentar, sugerir
que peçam demissão, dar tarefas sem sentido ou que jamais
serão utilizadas ou mesmo irão para o lixo, dar tarefas
através de terceiros ou colocar em sua mesa sem avisar, controlar
o tempo de idas ao banheiro, tornar público algo íntimo
do/a subordinado/a, não explicar a causa da perseguição,
difamar, ridicularizar.
As manifestações do assédio segundo o sexo:
Com as mulheres: os controles são diversificados e visam intimidar,
submeter, proibir a fala, interditar a fisiologia, controlando tempo
e freqüência de permanência nos banheiros. Relaciona
atestados médicos e faltas a suspensão de cestas básicas
ou promoções.
Com os homens: atingem a virilidade, preferencialmente.
Os
espaços da humilhação
As empresas
· Começar sempre reunião amedrontando quanto
ao desemprego ou ameaçar constantemente com a demissão.
· Subir em mesa e chamar a todos de incompetentes.
· Repetir a mesma ordem para realizar uma tarefa simples centenas
de vezes até desestabilizar emocionalmente o trabalhador ou
dar ordens confusas e contraditórias.
· Sobrecarregar de trabalho ou impedir a continuidade do trabalho,
negando informações.
· Desmoralizar publicamente, afirmando que tudo está
errado ou elogiar, mas afirmar que seu trabalho é desnecessário
à empresa ou instituição.
· Rir a distância e em pequeno grupo; conversar baixinho,
suspirar e executar gestos direcionado-os ao trabalhador.
· Não cumprimentar e impedir os colegas de almoçarem,
cumprimentarem ou conversarem com a vítima, mesmo que a conversa
esteja relacionada à tarefa. Querer saber o que estavam conversando
ou ameaçar quando há colegas próximos conversando.
· Ignorar a presença do/a trabalhador/a.
· Desviar da função ou retirar material necessário
à execução da tarefa, impedindo o trabalho.
· Exigir que faça horários fora da jornada. Ser
trocado/a de turno, sem ter sido avisado/a.
· Mandar executar tarefas acima ou abaixo do conhecimento do
trabalhador.
· Voltar de férias e ser demitido/a ou ser desligado/a
por telefone ou telegrama em férias.
· Hostilizar, não promover ou premiar colega mais novo/a
e recém-chegado/a à empresa e com menos experiência,
como forma de desqualificar o trabalho realizado.
· Espalhar entre os colegas que o/a trabalhador/a está
com problemas nervoso.
· Sugerir que peça demissão, por sua saúde.
· Divulgar boatos sobre sua moral.
Ambulatório das empresas e INSS
· Sofrer constrangimento publico e ser considerado mentiroso.
· Ser impedido de questionar. Mandar calar-se, reafirmando
sua posição de ‘autoridade no assunto’.
· Menosprezar o sofrimento do outro.
· Ridicularizar o doente e a doença.
· Empurrar de um lugar para outro e não explicar o diagnostico
ou tratamento recomendado.
· Ser tratado como criança e ver ironizados seus sintomas.
· Ser atendido de porta aberta e não ter privacidade
respeitada.
· Ter seus laudos recusados e ridicularizados
· Não ter reconhecido seus direitos ou não ser
reconhecido como ‘um legitimo outro’ na convivência.
· Aconselhar o/a adoecido/a a pedir demissão.
· Negar o nexo causal.
· Dar alta ao adoecido/a em tratamento, encaminhando para a
produção.
· Negar laudo médico, não fornecer cópia
dos exames e prontuários.
· Não orientar o trabalhador quanto aos riscos existentes
no setor ou posto de trabalho.
Política
de reafirmação da humilhação nas empresas
a) com todos os trabalhadores
· Estimular a competitividade e individualismo, discriminando
por sexo: cursos de aperfeiçoamento e promoção
realizado preferencialmente para os homens.
· Discriminação de salários segundo sexo.
· Passar lista na empresa para que os trabalhadores/as se comprometam
a não procurar o Sindicato ou mesmo ameaçar os sindicalizados.
· Impedir que as grávidas sentem durante a jornada ou
que façam consultas de pré-natal fora da empresa.
· Fazer reunião com todas as mulheres do setor administrativo
e produtivo, exigindo que não engravidem, evitando prejuízos
a produção.
· Impedir de usar o telefone em casos de urgência ou
não comunicar aos trabalhadores/as os telefonemas urgentes
de seus familiares.
· Impedir de tomar cafezinho ou reduzir horário de refeições
para 15 minutos. Refeições realizadas no maquinário
ou bancadas.
· Desvio de função: mandar limpar banheiro, fazer
cafezinho, limpar posto de trabalho, pintar casa de chefe nos finais
de semana.
· Receber advertência em conseqüência de atestado
médico ou por que reclamou direitos.
b) discriminação aos adoecidos e acidentados que retornam
ao trabalho
· Ter outra pessoa no posto de trabalho ou função.
· Colocar em local sem nenhuma tarefa e não dar tarefa.
Ser colocado/a sentado/a olhando os outros trabalhar, separados por
parede de vidro daqueles que trabalham.
· Não fornecer ou retirar todos os instrumentos de trabalho.
· Isolar os adoecidos em salas denominadas dos ‘compatíveis’.
Estimular a discriminação entre os sadios e adoecidos,
chamando-os pejorativamente de ‘podres, fracos, incompetentes,
incapazes’.
· Diminuir salários quando retornam ao trabalho.
· Demitir após a estabilidade legal.
· Ser impedido de andar pela empresa.
· Telefonar para a casa do funcionário e comunicar à
sua família que ele ou ela não quer trabalhar.
· Controlar as idas a médicos, questionar acerca do
falado em outro espaço. Impedir que procurem médicos
fora da empresa.
· Desaparecer com os atestados. Exigir o Código Internacional
de Doenças - CID - no atestado como forma de controle.
· Colocar guarda controlando entrada e saída e revisando
as mulheres.
· Não permitir que conversem com antigos colegas dentro
da empresa.
· Colocar um colega controlando o outro colega, disseminando
a vigilância e desconfiança.
· Dificultar a entregar de documentos necessários à
concretização da perícia médica pelo INSS.
· Omitir doenças e acidentes.
· Demitir os adoecidos ou acidentados do trabalho.
Frases
discriminatórias freqüentemente utilizadas pelo agressor
Você
é mesmo difícil... Não consegue aprender as coisas
mais simples! Até uma criança faz isso... e só
você não consegue!
É melhor você desistir! É muito difícil
e isso é pra quem tem garra!! Não é para gente
como você!
Não quer trabalhar... fique em casa! Lugar de doente é
em casa! Quer ficar folgando... descansando.... de férias pra
dormir até mais tarde....
A empresa não é lugar para doente. Aqui você só
atrapalha!
Se você não quer trabalhar... por que não dá
o lugar pra outro?
Teu filho vai colocar comida em sua casa? Não pode sair! Escolha:
ou trabalho ou toma conta do filho!
Lugar de doente é no hospital... Aqui é pra trabalhar.
Ou você trabalha ou você vai a médico. É
pegar ou largar... não preciso de funcionário indeciso
como você!
Pessoas
como você... Está cheio aí fora!
Você é mole... frouxo... Se você não tem
capacidade para trabalhar... Então porque não fica em
casa? Vá pra casa lavar roupa!
Não posso ficar com você! A empresa precisa de quem dá
produção! E você só atrapalha!
Reconheço que foi acidente... mas você tem de continuar
trabalhando! Você não pode ir a médico! O que
interessa é a produção!
É melhor você pedir demissão... Você está
doente... está indo muito a médicos!
Para que você foi a médico? Que frescura é essa?
Tá com frescura? Se quiser ir pra casa de dia... tem de trabalhar
à noite!
Se não pode pegar peso... dizem piadinhas "Ah... tá
muito bom para você! Trabalhar até às duas e ir
para casa. Eu também quero essa doença!"
Não existe lugar aqui pra quem não quer trabalhar!
Se você ficar pedindo saída eu vou ter de transferir
você de empresa... de posto de trabalho... de horário...
Seu trabalho é ótimo, maravilhoso... mas a empresa neste
momento não precisa de você!
Como você pode ter um currículo tão extenso e
não consegue fazer essa coisa tão simples?
Você me enganou com seu currículo... Não sabe
fazer metade do que colocou no papel.
Vou ter de arranjar alguém que tenha uma memória boa,
pra trabalhar comigo, porque você... Esquece tudo!
A empresa não precisa de incompetente igual a você!
Ela faz confusão com tudo... É muito encrenqueira! É
histérica! É mal casada! Não dormiu bem... é
falta de ferro!
Vamos ver que brigou com o marido!
Danos
da humilhação à saúde
A
humilhação constitui um risco invisível, porém
concreto nas relações de trabalho e a saúde dos
trabalhadores e trabalhadoras, revelando uma das formas mais poderosa
de violência sutil nas relações organizacionais,
sendo mais freqüente com as mulheres e adoecidos. Sua reposição
se realiza 'invisivelmente' nas práticas perversas e arrogantes
das relações autoritárias na empresa e sociedade.
A humilhação repetitiva e prolongada tornou-se prática
costumeira no interior das empresas, onde predomina o menosprezo e
indiferença pelo sofrimento dos trabalhadores/as, que mesmo
adoecidos/as, continuam trabalhando.
Freqüentemente
os trabalhadores/as adoecidos são responsabilizados/as pela
queda da produção, acidentes e doenças, desqualificação
profissional, demissão e conseqüente desemprego. São
atitudes como estas que reforçam o medo individual ao mesmo
tempo em que aumenta a submissão coletiva construída
e alicerçada no medo. Por medo, passam a produzir acima de
suas forças, ocultando suas queixas e evitando, simultaneamente,
serem humilhados/as e demitidos/as.
Os
laços afetivos que permitem a resistência, a troca de
informações e comunicações entre colegas,
se tornam 'alvo preferencial' de controle das chefias se 'alguém'
do grupo, transgride a norma instituída. A violência
no intramuros se concretiza em intimidações, difamações,
ironias e constrangimento do 'transgressor' diante de todos, como
forma de impor controle e manter a ordem.
Em
muitas sociedades, ridicularizar ou ironizar crianças constitui
uma forma eficaz de controle, pois ser alvo de ironias entre os amigos
é devastador e simultaneamente depressivo. Neste sentido, as
ironias mostram-se mais eficazes que o próprio castigo. O/A
trabalhador/a humilhado/a ou constrangido/a passa a vivenciar depressão,
angustia, distúrbios do sono, conflitos internos e sentimentos
confusos que reafirmam o sentimento de fracasso e inutilidade.
As
emoções são constitutivas de nosso ser, independente
do sexo. Entretanto a manifestação dos sentimentos e
emoções nas situações de humilhação
e constrangimentos são diferenciadas segundo o sexo: enquanto
as mulheres são mais humilhadas e expressam sua indignação
com choro, tristeza, ressentimentos e mágoas, estranhando o
ambiente ao qual identificava como seu, os homens sentem-se revoltados,
indignados, desonrados, com raiva, traídos e têm vontade
de vingar-se. Sentem-se envergonhados diante da mulher e dos filhos,
sobressaindo o sentimento de inutilidade, fracasso e baixa auto-estima.
Isolam-se da família, evitam contar o acontecido aos amigos,
passando a vivenciar sentimentos de irritabilidade, vazio, revolta
e fracasso.
Passam
a conviver com depressão, palpitações, tremores,
distúrbios do sono, hipertensão, distúrbios digestivos,
dores generalizadas, alteração da libido e pensamentos
ou tentativas de suicídios que configuram um cotidiano sofrido.
É este sofrimento imposto nas relações de trabalho
que revela o adoecer, pois o que adoece as pessoas é viver
uma vida que não desejam, não escolheram e não
suportam.
Sintomas
do assédio moral na saúde
Entrevistas
realizadas com 870 homens e mulheres vítimas de opressão
no ambiente profissional revelam como cada sexo reage a essa situação
(em porcentagem)
Sintomas
Mulheres Homens
Crises de choro 100 -
Dores generalizadas 80 80
Palpitações, tremores 80 40
Sentimento de inutilidade 72 40
Insônia ou sonolência excessiva 69,6 63,6
Depressão 60 70
Diminuição da libido 60 15
Sede de vingança 50 100
Aumento da pressão arterial 40 51,6
Dor de cabeça 40 33,2
Distúrbios digestivos 40 15
Tonturas 22,3 3,2
Idéia de suicídio 16,2 100
Falta de apetite 13,6 2,1
Falta de ar 10 30
Passa a beber 5 63
Tentativa de suicídio - 18,3
É
possível estabelecer o nexo causal?
Segundo
Resolução 1488/98 do Conselho Federal de Medicina, "para
o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde
e as atividades do trabalhador, além do exame clínico
(físico e mental) e os exames complementares, quando necessários,
deve o médico considerar:
A história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer
diagnóstico e/ou investigação de nexo causal;
O estudo do local de trabalho;
O estudo da organização do trabalho;
Os dados epidemiológicos;
A literatura atualizada;
A ocorrência de quadro clínico ou subclínico em
trabalhador exposto a condições agressivas;
A identificação de riscos físicos, químicos,
biológicos, mecânicos, estressantes, e outros;
O depoimento e a experiência dos trabalhadores;
Os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus
profissionais, sejam ou não da área de saúde."
(Artigo 2o da Resolução CFM 1488/98).
Acrescrentamos: Duração e repetitividade da exposição
dos trabalhadores a situações de humilhação.
O
que a vítima deve fazer?
Resistir:
anotar com detalhes toda as humilhações sofrida (dia,
mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas que
testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais você
achar necessário).
Dar visibilidade, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles
que testemunharam o fato ou que já sofreram humilhações
do agressor.
Organizar. O apoio é fundamental dentro e fora da empresa.
Evitar conversar com o agressor, sem testemunhas. Ir sempre com colega
de trabalho ou representante sindical.
Exigir por escrito, explicações do ato agressor e permanecer
com cópia da carta enviada ao D.P. ou R.H e da eventual resposta
do agressor. Se possível mandar sua carta registrada, por correio,
guardando o recibo.
Procurar seu sindicato e relatar o acontecido para diretores e outras
instancias como: médicos ou advogados do sindicato assim como:
Ministério Público, Justiça do Trabalho, Comissão
de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina (ver Resolução
do Conselho Federal de Medicina n.1488/98 sobre saúde do trabalhador).
Recorrer ao Centro de Referencia em Saúde dos Trabalhadores
e contar a humilhação sofrida ao médico, assistente
social ou psicólogo.
Buscar apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto e
a solidariedade são fundamentais para recuperação
da auto-estima, dignidade, identidade e cidadania.
Importante:
Se
você é testemunha de cena(s) de humilhação
no trabalho supere seu medo, seja solidário com seu colega.
Você poderá ser "a próxima vítima"
e nesta hora o apoio dos seus colegas também será precioso.
Não esqueça que o medo reforça o poder do agressor!
Lembre-se:
O
assédio moral no trabalho não é um fato isolado,
como vimos ele se baseia na repetição ao longo do tempo
de práticas vexatórias e constrangedoras, explicitando
a degradação deliberada das condições
de trabalho num contexto de desemprego, dessindicalização
e aumento da pobreza urbana. A batalha para recuperar a dignidade,
a identidade, o respeito no trabalho e a auto-estima, deve passar
pela organização de forma coletiva através dos
representantes dos trabalhadores do seu sindicato, das CIPAS, das
organizações por local de trabalho (OLP), Comissões
de Saúde e procura dos Centros de Referencia em Saúde
dos Trabalhadores (CRST e CEREST), Comissão de Direitos Humanos
e dos Núcleos de Promoção de Igualdade e Oportunidades
e de Combate a Discriminação em matéria de Emprego
e Profissão que existem nas Delegacias Regionais do Trabalho.
O
basta à humilhação depende também da informação,
organização e mobilização dos trabalhadores.
Um ambiente de trabalho saudável é uma conquista diária
possível na medida em que haja "vigilância constante"
objetivando condições de trabalho dignas, baseadas no
respeito 'ao outro como legítimo outro', no incentivo a criatividade,
na cooperação.
O
combate de forma eficaz ao assédio moral no trabalho exige
a formação de um coletivo multidisciplinar, envolvendo
diferentes atores sociais: sindicatos, advogados, médicos do
trabalho e outros profissionais de saúde, sociólogos,
antropólogos e grupos de reflexão sobre o assédio
moral. Estes são passos iniciais para conquistarmos um ambiente
de trabalho saneado de riscos e violências e que seja sinônimo
de cidadania.
Perfil
dos agressores segundo trabalhadores
Profeta: Sua missão é "enxugar" o mais rápido
possível a "máquina", demitindo indiscriminadamente
os trabalhadores/as. Refere-se às demissões como a "grande
realização da sua vida". Humilha com cautela, reservadamente.
As testemunhas, quando existem, são seus superiores, mostrando
sua habilidade em "esmagar" elegantemente.
Mala-babão: É aquele chefe que bajula o patrão
e não larga os subordinados. Persegue e controla cada um com
"mão de ferro". É uma espécie de capataz
moderno.
Grande irmão: Aproxima-se dos trabalhadores/as e mostra-se
sensível aos problemas particulares de cada um, independente
se intra ou extra-muros. Na primeira "oportunidade", utiliza
estes mesmos problemas contra o trabalhador, para rebaixá-lo,
afastá-lo do grupo, demiti-lo ou exigir produtividade.
Pitt-bull: é o chefe agressivo, violento e perverso em palavras
e atos. Demite friamente e humilha por prazer.
Garganta: É o chefe que não conhece bem o seu trabalho,
mas vive contando vantagens e não admite que seu subordinado
saiba mais do que ele. Submete-o a situações vexatórias,
como por exemplo: colocá-lo para realizar tarefas acima do
seu conhecimento ou inferior à sua função.
Troglodita: É o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas
sem pensar e todos devem obedecer sem reclamar. Sempre está
com a razão. Seu tipo é: "eu mando e você
obedece".
Tasea: "Ta se achando".
Confuso e inseguro. Esconde seu desconhecimento com ordens contraditórias:
começa projetos novos, para no dia seguinte modificá-los.
Exige relatórios diários que não serão
utilizados. Não sabe o que fazer com as demandas dos seus superiores.
Se algum projeto é elogiado pelos superiores, colhe os louros.
Em caso contrário, responsabiliza a "incompetência"
dos seus subordinados.
Tigrão: Esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e
necessita de público que assista seu ato para sentir-se respeitado
e temido por todos.
Analise
abaixo as situações de assédio moral que você
já passou:
Seu
chefe / Sua chefe:
Não lhe cumprimenta mais e não fala mais com você
Atribui a você "erros imaginários"
Bloqueia o andamento dos seus trabalhos
Manda cartas de advertência protocolada
Impõe horários injustificados
Enche de trabalho
Pede trabalhos urgentes sem nenhuma necessidade
Dá instruções confusas e imprecisas
Ignora sua presença na frente dos outros
Fala mal de você em público
Manda você executar tarefas sem interesse
Faz circular maldades e calúnias sobre você
Transfere você do setor para lhe isolar
Não lhe dá qualquer ocupação; não
lhe passa as tarefas
Retira seus instrumentos de trabalho: telefone, fax, computador, mesa...
Proíbe seus colegas de falar/almoçar com você
Agride você somente quando você está a sós
com ele
Insinua e faz correr o boato de que você está com problema
mental ou familiar
Força você a pedir demissão
Prejudica sua saúde
SE
VOCÊ ESTÁ PASSANDO POR UMA SITUAÇÃO DE
ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO, acesse: www.assediomoral.org
e PRENCHA O FORMULÁRIO E PEÇA AJUDA.
fonte:
www.assediomoral.org
Fonte:
Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP